08/02/2010

Como Brasília perdeu uma prostituta

Gilberto Dimenstein em 18/11/08

Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rápido na escola; assim, deixou a prostituição e virou dentista

A educadora Dagmar Garroux preparou uma de suas alunas para ser prostituta. Mas não qualquer prostituta -seria treinada para circular pelos bastidores de Brasília. Além de etiqueta, aprenderia a falar bem português e se viraria no inglês ou espanhol. Com aulas de artes, história e atualidades, ela conseguiria manter uma conversa em recepções. “O treino funcionou”, orgulha-se Dagmar. Funcionou tão bem que Brasília perdeu uma prostituta.

A menina, estimulada com a chance de ser prostituta em Brasília, morava na favela do Parque Santo Antônio, localizada no chamado “triângulo da morte”, na zona sul da cidade de São Paulo. No “triângulo” existe o cemitério São Luiz, que, conta-se, é o lugar onde estariam enterrados mais adolescentes por metro quadrado no mundo.

Dagmar criou, ali, um centro educacional batizado de Casa do Zezinho -o nome é inspirado na poesia “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade. Uma das freqüentadoras da casa era a menina, que começou a vender o corpo, na fronteira da adolescência, agenciada por um rapaz mais velho da escola pública em que estudava. Dividiam pela metade o valor de cada programa (R$ 10).

A garota não gostou da intromissão da educadora. “Não se mete, não.
Você nunca pensou em se vender para ganhar dinheiro?”, perguntou, agressiva. Ela era conhecida pela violência, metia-se em brigas. Quase sempre andava com uma faca.

Dagmar suspeitou de que corria o risco de perder a aluna, desfeito o já frágil laço afetivo. Decidiu entrar no jogo. Disse que nunca quis vender o corpo. Mas, se quisesse, não iria aceitar mixaria. “Eu iria cobrar no mínimo R$ 1.000. Isso no começo, depois aumentaria o preço.”

A aluna arregalou os olhos e ouviu a improvável proposta: “Por que você não se prepara para ser puta em Brasília? Você ganha dinheiro e se aposenta”. Com aquele corpo e a bagagem intelectual, acrescentou, certamente iria surgir um marido rico.

No dia seguinte, a garota voltou, animada com a proposta. “Topo”, disse. Dagmar ponderou que ela deveria, então, se preparar. Para começo de conversa, deveria se cuidar para que aumentasse a disputa dos clientes.

Precisaria, assim, parar imediatamente de estragar seu corpo com os homens da favela. “Você quer chegar a Brasília com a mercadoria velha?” Dagmar convenceu-a de que, além do corpo atraente, precisaria mostrar cultura e saber falar. Um tanto a contragosto, mas de olho nas recompensas futuras, aceitou as aulas.

Com as aulas, vieram reflexões sobre autonomia e responsabilidade; a auto-estima era trabalhada em projetos de arte e comunicação. Certo dia, ela fez um comentário sobre os dentes de Dagmar. “Parece que você tem uma boca de cavalo.” E brincou: “Se eu fosse dentista, eu consertaria a sua boca”.

O apoio explicou por que, embora sem intenção, a menina apresentasse melhor desempenho escolar. A trajetória teve momentos de crise: como já não faturava com a prostituição, a garota passou a vender drogas. Dagmar voltou a argumentar que, se fosse mesmo vender drogas, deveria se tornar chefe e, aí, precisaria continuar os estudos para entender contabilidade. O inglês seria útil para transações internacionais.

Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais rapidamente na escola. À medida que ficava mais velha, prestava mais atenção no que acontecia em sua comunidade com quem se envolvia com as drogas e a prostituição -bem ao seu lado estava o pedagógico cemitério São Luiz.

Ela chegou a concluir o ensino médio e suspeitou que talvez pudesse prosseguir. Por motivos óbvios, não posso revelar o nome da aluna: “Ainda sinto muita vergonha”, justifica. Fez um cursinho pré-vestibular gratuito e entrou na USP. Formou-se em odontologia -e agora vive consertando bocas.

PS: A ex-futura-prostituta de Brasília é um dos casos que passaram pela Casa do Zezinho, uma experiência relatada agora pelo educador Celso Antunes no livro “A Pedagogia do Cuidado”, a ser lançado neste mês.

Ele detalha o que existe de teorias pedagógicas por trás dos exemplos.
Se os gestores municipais agora eleitos quiserem fazer cidades melhores, terão de aprender as magias que podem ser feitas quando existirem bons educadores, mesmo num “triângulo da morte”.

É mais uma ilustração do que sempre digo: educar é ensinar o encanto da possibilidade. Um dos seus projetos é transformar aquele simbólico cemitério São Luiz, com o recorde de covas de adolescentes, numa galeria de arte, com os muros externos pintados -as obras, claro, serão feitas por adolescentes. Por esse tipo de experiência, Dagmar vai dar aula, na próxima semana, num curso de gestão da Fundação Vanzolini, da Poli.

Dica Catraca

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Comentários (10)
Carlos Sergio Pereira Neves 20 de novembro de 2008 às 9:53

Quero conhecer essa dentista. Nem tudo na vida está perdido. O Brasil para alguns honesto faz algo da excelência de Deus, o milagre da vida com dignidade.

Gileno Rosa 20 de novembro de 2008 às 9:57

O centro de Salvador está tomado de meninos e meninas dependentes de drogas. Antes eu não via uma forma de salvar aquelas crianças. Agora, a partir dessse trabalho, vejo que é possível.

Gileno – Salvador-BA

Carlos Sato 20 de novembro de 2008 às 12:46

Impressionante! Queria conhecer a dentista. Deu para mim uma lição de vida.

Nerilma da Cruz Barboza 20 de novembro de 2008 às 13:58

Parabéns à menina que hoje é dentista. É assim que se vence. Acredito sim que podemos escolher o nosso caminho e nosso futuro. Como disse Nelson Godri, numa palestra esta semana, quando nascemos, Deus dá a cada um de nós as ferramentas de que precisaremos para nossa vida e o que nos tornamos é fruto do que fazemos com essas ferramentas.

Maria del Pilar Ferrer 20 de novembro de 2008 às 15:08

Ah, ser educadora!!!!!!!!!!!! é viver aprendendo. Parabéns a essa mulher que precisou desconstruir para que a própria menina (ex-futura prostituta) se construísse. Trabalhar com comunidades onde a desigualdade é o fator preponderante é árduo, mas pode ser lindo e transformador.
Parabéns a essa jovem dentista que hoje conhece e reconhece uma vida de luta e sucesso, espero que possa ajudar a outra meninas.
Obrigada pela injeção de animo.
Pilar- Santos

Paulo Roberto Reis de Sousa. 20 de novembro de 2008 às 17:33

Que sorte tive de poder ler esta reportagem. Nem tudo está perdido! Gostaria de poder ajudar e ser util como esta educadora.

José Maria de Arruda Paes 20 de novembro de 2008 às 20:05

Tal como na peça Pigmaleão, de Bernard Shaw e depois transformado no filme My Fair Lady, onde uma moça rude é transformada numa dama. No teatro foi uma fantasia, mas com a educadora foi realidade. Ela atendeu o pedido de Cristo!

José Arruda Franca- SP

Agmar Vieira Jr. 25 de novembro de 2008 às 8:07

Devemos lutar por ela com todas as nossas forças, nem que para isto seja preciso “desconstruir” a lógica, com fez a Educadora Dagmar. Jamais devemos desistir das pessoas e o exemplo da “ex-futura prostituta de Brasília” nos anima a prosseguir. Nem tudo está perdido!Como diretor da ONG Fundação Isis Bruder (www.fundacaoisisbruder.org.br) vou levar este caso e o estudo do livro “A Pedagogia do Cuidado” como fonte de inspiração para os projetos que temos em bairros carentes da cidade.
Agmar Vieira Jr. – Maringá – PR.

Cristina Sant'Ana 11 de dezembro de 2008 às 10:18

Ao ler esta msg me lembrei do filme “Escritores da Liberdade” no qual a professora dedicada leva os alunos a elevar a auto-estima e escreverem um livro…
PARABENS! Educadora Dagmar.

Fátima Gonçalves 23 de janeiro de 2009 às 14:05

Fico encantada com iniciativas como a da educadora Dagmar. Creio que qdo trabalhamos para o bem estar do outro a recompensa vem de forma inesperada. A busca não é pelo reconhecimento e sim pela sucesso do educando. Parabéns Dagmar, este é o caminho.