Tratamento contra o crack?

Gilberto Dimenstein em 24/05/10

Sem temer a polêmica, talvez se pudesse responder positivamente ao título desta coluna. Durante três anos, um grupo de 50 viciados em crack se submeteu a uma experiência comandada por psiquiatras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo): a combinação de terapia com maconha. O resultado do teste ganhou repercussão mundial, especialmente nos EUA, onde foi publicado em revistas científicas. Daquele grupo, 68% trocaram o crack pela maconha. Tempos depois, todos (vamos repetir, todos) os que fizeram a troca não usavam nenhuma droga.

A maconha serviu para reduzir a “fissura” pelo crack, enquanto se esperavam os efeitos da terapia para que, com apoio familiar, o jovem pudesse reorganizar sua vida. Essas informações foram suficientes para inspirar médicos, inclusive do setor público, a tratar seus pacientes viciados em drogas pesadas. Técnicos do Ministério da Saúdes e mostraram impressionados. Idealizador dessa experiência, Dartiu Xavier, professor de psiquiatria da Unifesp, especialista em dependência química, está frustrado, porém.

Ele foi obrigado a abandonar seu projeto, pois corria o risco de emaranhar-se na lei e de vir a ser trata do como traficante. Além disso, ele seria alvo do ataque de inúmeras entidades médicas brasileiras. A tragédia do crack ganhou mais destaque na semana passada, quando o governo federal anunciou um plano de R$ 410milhões para lidar com os estimados 600 dependentes de crack – um crescimento, segundo estimativas oficiais, de 70% nos últimos cinco anos.

Se a lei permitisse, Dartiu ampliaria o número de atendidos, por exemplo na cidade de São Paulo, onde existem grandes áreas de consumo do crack. A própria universidade forneceria a maconha para garantir o controle da experiência. Quem sabe estaria aí o começo da solução ou, pelo menos, da redução dos danos provocados por essa praga que infesta o país e criou uma “cidade”chamada” cracolândia”.

Na semana passada, durante um congresso internacional, realizado na Unifesp, quando se discutiu a criação de uma agência brasileira para o uso medicinal da maconha, o preconceito foi bombardeado por argumentos científicos. Para sair do papel (sobretudo em ano eleitoral), porém, um projeto como esse, mesmo como apoio do Ministério da Saúde, tem de percorrer um longo caminho. Em Washington, capital de um país conservador em relação às drogas, a maconha já foi liberada para uso medicinal.

Um dos maiores especialistas mundiais em drogas, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, ligado à Unifesp, aponta a existência de estudos feitos com animais em que se revela que o princípio ativo da maconha ajuda a combater a depressão e fortalece os indivíduos em situações de estresse.

“É apenas uma hipótese. Afinal, isso só foi testado em animais”, diz Carlini, um dos principais idealizadores do encontro internacional da semana passada. Mas ele já sabe que existe comprovação da eficácia de vários de seus tratamentos, alguns dos quais descobertos não por cientistas ou médicos, mas por indivíduos comuns. Na Califórnia, jovens com câncer que, durante as sessões de quimioterapia, demonstravam menos efeitos colaterais, tinham em comum o uso de maconha.

Em suas aulas, o professor Elisaldo gosta de mostrar textos do médico da rainha Vitória (J. Russel Reynolds), da Inglaterra, em que recomendava entusiasticamente a cannabis como remédio. Ele descobriu registros sobre o uso da maconha como analgésico na China há mais de 5.000 anos.

Dartiu e Carlini sabem não só que a maconha afeta a concentração, o aprendizado e a memória mas também que sua descriminalização não é uma medida de fácil implementação. O que está em discussão, porém, é o direito de fazer ciência honestamente sem correr o risco de ser aponta do como marginal.

Leia coluna completa no jornal Folha de S.Paulo.

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Comentários (6)
Gledston Guimares 11 de maio de 2011 às 19:08

Qualquer ajuda em situações extremas como o vicio no crack e o câncer são bem vindas. Deveríamos pensar nos que estão sofrendo e esquecer um pouco o próprio umbigo.

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mércia soares santos 27 de outubro de 2010 às 14:40

droga nenhuma vale a pena
todos que consomem qualquer tipo de droga
esta jogando sua propria vida fora
diga não as drogas…….

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MAGALY ANDRIOTTI FERNANDES 1 de agosto de 2010 às 13:18

Penso que esse artigo demonstra que existem sim saidas diante da epidemia do crack, o problema que num pais onde nao se investe em Educação, as saidas apresentadas, esbarram numa serie de preconceitos e pessoas mal intencionadas para as quais o trafico de drogas garante ganhos outos.

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Bruno Logan 1 de junho de 2010 às 14:13

Enquanto as crenças a opinião publica e as religiões, dominarem a ciência, a mesma continuará a não ter serventia nenhuma.

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José Lara 1 de junho de 2010 às 12:46

Em relação ao projeto só totalmente a favor. Porem, existem incongruências no texto. O governo liberou 400 milhões para tratar 600 viciados? Acredito que o texto necessite de uma revisão.

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SôRamires 24 de maio de 2010 às 9:17

Que pena que muitos agem e opinam em termos “moralistas” quando a palavra maconha entra em foco. Os remédios também são “drogas” que têm sua ação sobre os organismos testada sob vários pontos de vista até se chegar a conclusões sobre seu uso, doses, efeitos colaterais, etc. É vergonhoso sabotar um trabalho que pode ser útil a tanta gente em nome da ideia preconceituosa de que cannabis ou maconha é palavrão.

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